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Poucas cidades carregam, no próprio nome, uma declaração de amor às águas. Campos dos Goytacazes carrega. "Goitacá" era como se chamavam os povos originários que habitavam estas planícies — e, em tupi, o nome guarda um sentido revelador: "gente que sabe nadar". Antes de ser cidade, antes de ser nome, este foi o território de um povo das águas. É essa herança que a segunda edição do FASA — Festival de Artes e Saberes das Águas, vem celebrar.

 

E não poderia ser diferente, porque em Campos a água está em toda parte. A cidade se estende por uma vasta planície de rios, brejos e lagoas, a baixada campista, cortada pelo Rio Paraíba do Sul, seu maior rio. Aqui repousa a Lagoa Feia, a maior do estado do Rio de Janeiro, descrita já em 1632 como "um grandíssimo lago de água doce". E aqui também se espelha a Lagoa de Cima, de tamanha beleza que Dom Pedro II, em uma de suas quatro visitas à cidade, a apelidou de "Lago dos Sonhos".

 

Mas a relação de Campos com as águas nunca foi apenas contemplativa, foi também de engenho e de trabalho. Foi sobre essas planícies alagadas que floresceu um dos maiores ciclos açucareiros do Brasil: no fim do século XIX, a cidade chegou a reunir centenas de engenhos. E foi para conduzir e domar essas águas que se ergueu uma das maiores obras hidráulicas do país, o Canal Campos-Macaé, que liga as bacias do Paraíba do Sul, da Lagoa Feia e do rio Macaé. Campos não apenas viveu às margens das águas: ela aprendeu a desenhá-las.

 

Dessa convivência secular nasceu uma cultura inteira. Está nas mãos dos artesãos que traduzem em suas obras a paisagem das lagoas; está na força do jongo e das tradições afro-brasileiras que reverenciam as águas; está na gastronomia ribeirinha, nas cachoeiras que descem da serra do Imbé, na memória de quem vive entre o rio e a lagoa. Em Campos, a água nomeia lugares, alimenta histórias e molda modos de viver.

 

É essa cidade, herdeira de um povo que sabia nadar e que segue sabendo viver com as suas águas, que o FASA escolhe para iniciar sua jornada pelo Litoral Norte Fluminense. Porque celebrar os saberes das águas, em Campos dos Goytacazes, é celebrar a própria origem de um território que sempre soube que viver é, antes de tudo, saber atravessar as águas.

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